quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O SUPEREGO INACREDITÁVEL (por Ana de Oliveira)

“The things, you say
You’re unbelievable…” (EMF)
Uns meses atrás em uma conversa com minha irmã mais nova, ela me contou que meu cunhado disse que esta música da banda EMF se encaixava perfeitamente a mim e que ele colocaria como toque do celular quando eu o ligasse. Confesso que achei engraçadíssimo quando fui prestar atenção na letra da música. Tudo bem que a única parte que se parece comigo é o refrão que diz: as coisas que você diz... você é inacreditável!
Eu cresci ouvindo várias críticas quanto ao meu modo de pensar e de me expressar. Tiveram épocas que isto realmente me incomodava, tanto que procurei uma psicóloga para ver se eu conseguia mudar ou, simplesmente, me aceitar. Lembro que na última sessão de terapia, indaguei o porquê de ela estar me dando alta, afinal eu não estava curada. Ela, com um sorriso amável no rosto, disse-me: Ana, você não tem problema algum! Cada um tem uma personalidade e a sua é esta. Sua essência! Com o tempo você irá aprender a moldá-la para evitar certos desgastes, apenas isto!
A origem da expressão Personalidade remete-nos para persona, “máscara” utilizada no teatro grego para representar as emoções dos atores. Ela é um elemento relativamente estável na conduta da pessoa. É o que nos torna únicos, diferentes de todos.
Confesso que nunca mais esqueci o que a Dra. Martha me disse naquele nosso último encontro.
Psicólogos dizem que vários fatores influenciam a personalidade de uma pessoa, quais sejam: influências hereditárias, meio social e experiências sociais. A meu ver, nada mais é que uma forma mais fácil de explicar o que Freud já havia proposto nos três componentes básicos estruturais da psique: id, ego e superego.
Desde meu último encontro com a psicóloga, vivenciei várias brigas internas tentando moldar este jeito Ana de ser. Hoje, aos 32 anos, posso dizer que consegui. Moldei da forma mais INACREDITÁVEL que eu poderia. Juntei todos os meus sentimentos, pensamentos, comportamentos, projetos de vida, todas as minhas emoções, atitudes, motivações, tomadas de decisões e coloquei num liquidificador interno. Misturei bem e... voilà! Mistureba que permite que eu me reconheça e seja reconhecida pelas pessoas. Esta mistura heterogênea a qual seus componentes são totalmente perceptíveis representa fielmente o ser humano Ana.
A Ana que nunca deixou de ser o que é, que sempre foi a mesma no espaço e no tempo. Aquela que sempre manteve a identidade para consigo e a diferenciação para com os outros.
Relembrando a estrutura proposta por Freud, vale a pena dar uma breve explicação sobre o superego. Este é a última estrutura da personalidade e se desenvolve a partir do Ego. O superego atua como juiz ou censor sobre as atividades e pensamento do Ego, é o depósito dos códigos morais, modelos de conduta e dos parâmetros que constituem as inibições da personalidade. Freud descreve três funções do Superego: consciência, auto-observação e formação de ideais. Em relação à consciência pessoal, o Superego age tanto para restringir, proibir ou julgar a atividade consciente, porém, ele também pode agir inconscientemente. Quanto à auto-observação, o Superego tem a capacidade de avaliar as atividades da pessoa. A formação de ideais do Superego está ligada ao seu próprio desenvolvimento.
Por fim, para retomar o refrão da música, cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos fatos que o precederam (consciência pessoal do Superego). Acredito que meu cunhado imagina que a maioria dos meus eventos mentais “parecem” ocorrer espontaneamente, mas sinto informá-lo, é ao contrário. Tenho a intenção consciente e a faço por amor em ver as pessoas me olharem com um ponto de interrogação no rosto e mentalmente dizerem: as coisas que você diz são INACREDITÁVEIS! Uma bela massagem no meu SUPEREGO!

sábado, 27 de setembro de 2014

A saudade... ah, a saudade! (Ana de Oliveira)

“Sem apego. Sem melancolia. Sem saudade. A ordem é desocupar lugares. Filtrar emoções.” (Caio Fernando de Abreu)
E foi lendo estas palavras que comecei minha faxina. Tinha na cabeça que tudo o que não me servia mais (objetos, roupas, sentimentos, momentos e, inclusive, pessoas) seria posto em uma caixa e jogado fora.
Comecei pela caixa que se encontrava no lugar mais alto do armário. Era uma caixa rosa – choque bem bonita. Imaginei que tivessem coisas interessantes nela, pois antigamente eu tinha mania de colocar coisas que gostava em lugares os quais eu achava bonito. Realmente eu estava certa. Abrindo a caixa rosa – choque, encontrei várias cartinhas escritas por amigos da época do colégio. Logo, sem nem pensar duas vezes, sentei em minha cama e comecei a abrir e ler de uma em uma.
Várias cartas tinham em seu teor juras de amizade eterna. Outras, com elogios à minha alegria e minhas gargalhadas. Confesso que chorei! Chorei de alegria em ver o quanto as pessoas gostavam de mim, mas chorei, também, de tristeza, pois não dei, talvez, o devido valor àquelas lindas palavras escritas em forma de versos infantis.
Fui acometida por um sentimento saudosista, praticamente um Casimiro de Abreu (quem nunca leu o poema “Meus oito anos”?):
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! (...)
Atribui-se tradicionalmente aos portugueses a criação do conceito de “saudade”, com base na aglutinação de “solidão” e “saudar”. Deve ser por isto que dizem que a palavra “saudade” é considerada sem par noutras línguas e que é a única que exprime misteriosa multiplicidade de sentimentos. Algumas trazem conceitos próximos. Em inglês, saudade é I miss you, que quer dizer sinto sua falta; em francês é souvenir, que significa lembrança; em italiano ricordo affetuoso, recordação afetuosa; em alemão, a palavra utilizada para tentar se descrever o conceito de saudade é sehnsuch. No Brasil há, inclusive, o dia da saudade, que é comemorado oficialmente em 30 de Janeiro. Na verdade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja exclusiva deste. Afinal, a saudade é universal.
Resolvi pegar a caixa verde – limão situada uma prateleira abaixo de onde estava a rosa – choque. Mais uma vez acertei que algo de bom teria dentro dela. Lá se encontravam vários e-mails, fotos e cartas da época que morei na Austrália. Época muito boa da minha vida, amigos inesquecíveis! Fui passando foto por foto e sentindo, no fundo do meu âmago, uma saudade que talvez eu nunca tivesse sentido. Isto me fez parar e fazer um exercício que minha psicóloga me ensinou. Comecei a ver de onde estava vindo este sentimento e pensar nele. Percebi que pela saudade, podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e, assim fazendo, trazer os tempos especiais e desejados de volta. Trouxe de volta tão fielmente, que tive a impressão de estar sentindo o cheiro das ruas de Sydney, o vento de Bronte Beach, o barulho dos pássaros em Blue Mountains, as luzes da cidade de Surfers Paradise e a calma de Byron Bay.
Retornei ao mundo real e outras três caixas me chamaram a atenção. Eram de diferentes tamanhos, mas todas com uma estampa de zebra. Abri as três de uma vez, joguei todo o conteúdo delas sobre minha cama e comecei a abrir aleatoriamente álbuns de fotos, cartas e mais cartas, telegramas! Isto existe e eu recebi vários! A cada momento, vendo cada coisinha e seus detalhes, percebi que ali tinha vida e, principalmente, muito amor! Mas, também, ausência. Cheguei à conclusão que o amor e a ausência são os pais da saudade. Quando sentimos saudade, a solidão se torna uma decorrência da ausência do ser que amamos, desta forma passamos a saudá-lo simbolicamente, evocando, mais uma vez, sua presença junto de nós. Neste momento, eu já não evocava a presença de uma única pessoa que amei ou um único momento, mas vários! Vários amigos que fizeram parte da minha história, vários momentos felizes que passei em Arraial D’Ajuda, viagens a diversos lugares, principalmente a que fiz ao Hawaii, momentos chatos, mas felizes na faculdade. Evocava a minha fase de adolescente que eu inventava códigos para escrever bilhetinhos para as amigas (achei o alfabeto inteiro em código dentro destas caixas); os piqueniques com a turma da rua...
É... a saudade realmente é universal não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e sentimento vividos de eternidade.
A título de curiosidade, um dos primeiros indivíduos a cantar a saudade, eternizando-a, foi Luís de Camões, como se constata no soneto Alma minha gentil,que te partiste, em que o poeta revela uma enlutada mágoa. Não suportando a dor da separação, pretende partir rapidamente para o Céu, como única hipótese de um reencontro com sua amada.
No final do dia e depois de tantas lembranças revividas, consegui fazer a faxina. Joguei muita coisa fora, principalmente umas que me remetiam a sentimentos ruins. Enterrei pessoas da minha memória, mas ao mesmo tempo ressuscitei em meu coração algumas que de fato hoje se encontram, talvez, em outra vida. E, além disto, cheguei à conclusão que a saudade é uma força vital que ultrapassa a realidade cotidiana e atinge outra dimensão. Pra mim, ela perfaz uma espécie de itinerário místico no qual as palavras não podem expressar.
A saudade... ah, a saudade! Ela situa-se na esfera do inefável!

sábado, 16 de agosto de 2014

Minha era da ansiedade: minhas unhas e meu sono de volta, por favor!

E foi assim que cheguei à conclusão que minha ansiedade estava em seu auge. Olhei para as minhas unhas e vi aquela cena horrorosa que me rondou por anos. Tudo um cotoco, quebradas, roídas, HORRÍVEIS. Logo me lembrei do álbum de casamento que há uns 5 anos atrás eu vi e me fez parar de roer unhas. DEUS! Não posso encontrar um marido com as mãos neste estado, como irei tirar aquela foto linda mostrando a aliança?
Não sei para vocês, mas para mim, um ponto particularmente intrigante é a “origem” da ansiedade. Como sou uma pessoa curiosa e, ultimamente, não tenho dormido direito por causa desta maldita, fui procurar algo sobre. A ciência e, antes dela, a filosofia ensaiaram algumas explicações. Na Grécia antiga, Hipócrates já tratava como problema médico. No século 19, Soren Kierkegaard a dimensionou como um “achado” da humanidade na obra “O conceito da angústia” – para ele, a ansiedade libera o potencial do indivíduo diante da liberdade. Já no fim do mesmo século, o primeiro a falar em ansiedade da maneira como a conhecemos foi Sigmund Freud e, ainda assim, com uma definição bem pouco precisa: ansiedade é o medo de “algo incerto, sem objeto”. Até Charles Darwin remeteu ao conceito, como dado importante para a evolução. Mas o significado mais aceito hoje vem de um psiquiatra australiano Aubrey Lewis que, em 1967, descreveu o termo como “um estado emocional com a qualidade do medo, desagradável, dirigido para o futuro, desproporcional e com desconforto subjetivo.”
E por falar em falta de sono, levantei rapidamente e fui direto pra frente do espelho. Para piorar tudo, minhas olheiras estão enormes! É nesta hora que tenho ódio em lembrar que já nasci com olheiras. Sim, nasci! Herdei do meu pai e quando não durmo... só Jesus na causa. Pensando cá com meus botões, negócio vai ser entrar na faca!
Sinceramente, esses conceitos são bonitinhos demais para mim. Acho que meu conceito é muito mais interessante: a ansiedade é a experiência de ser atirada para dentro do mundo! É você criar expectativas, é ter um sentimento incômodo projetado para o futuro. É a expectativa das pessoas sobre você. É aquela sensação de querer que tudo fosse diferente, mas a realidade teima em permanecer sendo outra.
E pra piorar tudo, sou mulher! Ai que vontade de me acabar novamente num pacote de biscoito de chocolate recheado. Dia desses li que de acordo com pesquisas, mulheres costumam sofrer mais de ansiedade que os homens por dois motivos: o primeiro é hormonal (maldito período pré-menstrual em que nosso cérebro fica privado de duas substâncias calmantes e antidepressivas: estrógeno e progesterona); o segundo é social, pois somos, desde pequenas, treinadas a externar nossas sensações/emoções normalmente.
Normalmente? Aliás, hoje passei o dia inteiro angustiada. Resolvi ir pra academia, no caminho ouvindo rádio, comecei a chorar! É normal alguém chorar ouvindo propaganda no rádio? Acho que essa pesquisa aí é totalmente descabida.
Cheguei à conclusão que a falta de sono, roer as unhas, comer compulsivamente e saber que a decisão sobre meu destino está nas mãos de uma única pessoa estão me fazendo ficar louca!
Por fim, alguém, por favor, me chame para tomar um vinho, acho que é isto que estou precisando!

(Texto totalmente sem pé nem cabeça!)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Um dia ela chega, assim é a mãe natureza.

Desde pequena vejo minha mãe quase tendo um “piripaque” quando falamos sobre morte. É engraçadíssimo, afinal tranquilidade sobre as coisas da vida é um dos ensinamentos que os pais devem passar para os filhos.
Tento, muitas vezes, entender o motivo dela não aceitar tão bem a morte, afinal, quando era pequena perdeu para o tétano uma irmã a qual era muito apegada. Creio que a morte quando somos crianças é mais pesarosa que quando somos adultos.
Tem seis meses que sofro pela morte de um grande amigo. Desde então tenho pensado muito sobre este assunto que tanto me atormenta.
Neste meu tempo ocioso, resolvi ler algumas coisas que pudessem me trazer um conforto maior, pois cheguei à conclusão que devo me preparar psicologicamente para este acontecimento que é inevitável para todos.
Li passagens na bíblia e confesso que não me senti tão confortável assim com a morte. Não entrarei no mérito, mesmo porque não costumo discutir sobre religião, política e futebol. 

Resolvi procurar algo no Senhor Google que pudesse me descrever a morte e, quando coloquei a palavra, apareceu para mim o seguinte: filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.Como num estalo, lembrei que assim como pude encontrar ensinamentos bons sobre a felicidade na filosofia, poderia encontrar alguma coisa que talvez saciasse esta minha sede de respostas sobre este assunto que tanto me amedronta.
Logo achei um livro chamado Ensaios do filósofo Michel Montaigne. Em seu Capítulo XIX (um dos mais conhecidos desta obra), Montaigne desenvolve pensamentos sobre uma das suas maiores preocupações que é “morrer bem”. Nele, num mosaico de exemplos e argumentos que lembram o caráter inevitável e imprevisível da morte, o grande filósofo parece chegar a um acordo com seu medo justificando, assim, o fato de que a morte seja “premeditada”, isto é, meditada com antecedência.
É exatamente com a frase que achei no Google que ele começa este capítulo. Peço licença para repetir: filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.
Filosofia vem do grego e significa “amor à sabedoria”, desta forma, ele explica que a sabedoria e a razão do mundo se concentram, afinal, no ponto de nos ensinar a não ter medo de morrer.
Minha irmã mais nova é engraçadíssima. O medo dela de morrer é imenso que algumas atitudes dela se tornam cômicas. Ela vive num contínuo tormento que nada consegue aliviar. Ela é capaz de ver o perigo da morte em qualquer coisa que ela faça. Vamos supor que ela esteja passando roupa, caso ocorra algum pensamento ruim na cabeça dela, ela já começa a prever um fio do ferro desencapado; depois ela tomando aquele choque monstruoso e o marido dela chegando em casa depois de 8 horas de trabalho e encontrando ela lá, estatelada no chão queimada! Seria trágico se não fosse cômico, ou seria cômico se não fosse trágico.
A morte é o fim da nossa caminhada, é o objetivo necessário de nossa mira; se nos apavora tanto, como é possível darmos um passo à frente sem sermos tomados pela ansiedade?
No caso da minha irmã, é impossível ela se proteger o suficiente, de hora em hora, para evitar um futuro perigo. Isto também serve para nós! Não conseguimos medir passo a passo do que iremos fazer pensando em evitar alguma tragédia.
Vamos a alguns exemplos que pra gente é extremamente impossível acontecer, mas no final são triviais e frequentes: um senhor, 50 anos, bem saudável aparentemente, está em uma parada de ônibus esperando a condução quando tem um ataque fulminante do coração (isto aconteceu ontem na EPTG). Meu amigo, o que citei logo no começo, foi uma morte absurda, nunca esperaria. Ele foi feliz para uma festa e lá o amigo dele se engraçou com uma mulher. Na saída da festa levou 9 tiros do bandido, namorado da mulher.
Diante destes exemplos e de vários outros que eu poderia citar aqui, só me vem uma pergunta: como é possível nos desfazer do pensamento da morte já que parece que a todo instante ela vai nos alcançar? Afinal, creio que seja bem mais difícil para nós aceitarmos a morte quando as pessoas estão saudáveis que quando elas estão doentes.
Foi respondendo a esta pergunta que lendo Montaigne consegui, talvez, tirar um pouco deste meu tormento. Ele escreveu, mais ou menos com estas palavras, o seguinte: “sou da seguinte opinião de que importa como ela é, contanto que não me preocupe com ela. Seja qual for a maneira, não posso me proteger, então como não sou pessoa de recuar, basta-me passar os dias como me dá prazer e adotar o melhor jogo que eu puder.”
Confesso que lendo isto, percebi que o que devemos fazer é tirar esta estranheza e nos acostumar com ela e, diante de nossa própria morte, devemos nos enrijecer e nos fortalecer. Afinal, ao nascermos, morremos. Seguindo a sabedoria “Orleiana” quando indagado como está passando (Orlei é meu pai), ele responde: estou bem, não tanto quanto, afinal cada dia que passa caminho para a morte (nunca imaginei que isto faria tanto sentido para mim).
Devemos, também, ter sempre a lembrança da nossa condição, pois entre festas e alegrias, em quantos modos podemos estar na mira da morte? Os egípcios, não sei se com sabedoria ou não, no meio de suas festas e entre seus melhores banquetes mandavam entrar uma anatomia seca de um homem para servir de advertência aos presentes. Acho que esta era a forma deles passarem exatamente o que disse acima, de que devemos viver, beber, festejar, nos alegrar, pois o presente já terá passado e nunca mais poderemos chamá-lo de volta. Bem, o Márcio, o amigo lá de cima, apesar de algumas pessoas da minha família terem falecido, foi a pessoa que mais me trouxe à tona esse sentimento ruim que a morte nos traz. Não sei em que vocês acreditam, mas eu acredito que ninguém morre antes da hora. Onde quer que nossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não está na duração: está no uso que dele fizemos. Existem pessoas que viveram muito tempo, mas pouco viveu. Em contrapartida, existem aquelas que pouco tempo viveram, mas muito viveu. Chego à conclusão que ainda que em nossas cabeças o tempo de pessoas queridas que se foram não estivesse concluído, a vida deles estava.
Para concluir, deixo algo interessante que li no livro de Montaigne. Pelo fato da palavra “morte” atingir muito rudemente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de mau agouro, os romanos aprenderam a suavizá-la e, em vez de dizer “ele morreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam-se, contato que seja vida, ainda que passada. Enfim, hoje passarei a falar igual aos romanos: minha avó Ana, meu avô Malaquias, meu amigo Márcio e vários outros amigos os quais me eram de grande importância...Viveram, ELES VIVERAM!

sexta-feira, 21 de março de 2014

A felicidade é desesperante!

Hoje um amigo meu veio com o seguinte discurso:
-Estou sumido porque vou completar 29 anos amanhã e estou deprimido por não ter alcançado tudo o que planejei pra minha vida.
O ser humano é muito esquisito mesmo. Será que o que ele planejou pra vida dele é o que Deus escreveu pra ele? Devia pensar nisto...
Este meu amigo é um cara inteligentíssimo, tem um emprego bom no MPU, fala 3 idiomas (eu acho) perfeitamente, tem uma família que dá apoio a ele, tem saúde, beleza, amigos e ainda tem o disparate de me falar que está deprimido porque não tem o que ele imaginou pra vida dele?
Quando eu estava na faculdade, se não me engano no 7º semestre, tive que fazer aulas de filosofia. Lembro, como se fosse hoje, quando o professor pediu para fazermos um trabalho sobre o livro “A Felicidade, desesperadamente" de André Comte-Sponville (um dos mais respeitados filósofos e ensaístas da atualidade).
Na época, achei meio chato, juro que tive que tomar uns "gorós" para poder entender melhor o livro, mas no final foi uma das melhores leituras que pude fazer na minha vida.
Em seu livro, Comte diz que a felicidade é desesperante. Tal termo “desesperante” não é o sentido extremo da felicidade. Ele emprega a palavra num sentido literal, quase etimológico para designar o grau zero da esperança, a pura e simples ausência de esperança.
Ele começa seu livro fazendo uma citação de Pascal: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar. Se ele se enforca, é para escapar da infelicidade; e escapar da infelicidade ainda é se aproximar pelo menos tanto quanto possível, de uma certa felicidade, nem que ela seja negativa ou o próprio nada.”
Confesso que depois de ler este livro, me surgiu uma certa curiosidade em saber um pouco mais sobre felicidade no mundo da filosofia. Li alguns outros livros sobre o assunto e, mesmo sabendo que os filósofos são ateus, tive que concordar com muitas coisas que diziam. Cheguei à conclusão de que o homem é um ser angustiado de nascença, por isto ele se apega a um Ser Superior para ter a esperança de que as coisas irão mudar e ficarão melhores.  Não estou dizendo aqui que não acredito em Deus ou algo do tipo, mesmo porque as pessoas que me conhecem sabem que acredito Nele. Só estou dando a conclusão que cheguei das minhas leituras.
Várias vezes eu ouço pessoas próximas a mim, dizendo que não são felizes. Sempre os interrompo e digo: olha, você é feliz, só não está no momento.  Não há como se sentir alegre permanentemente e, quem conseguir isto, por favor, me ensina! Buda já dizia: “toda vida é sofrimento”, se você busca uma alegria contínua e soberana, ou mesmo a ausência total de sofrimento e angústia, certamente nunca será feliz! Não existe uma felicidade absoluta e, normalmente, as pessoas não conseguem enxergar isto.
Relembrando o livro de Comte, lá ele diz que ser feliz é, pelo menos numa primeira aproximação, ter o que desejamos.  Agora penso, mas e se eu alcançar o que desejo serei plenamente feliz? A resposta é simples, NÃO! Mesmo porque, citando Platão, “o que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, chego à conclusão que todos somos um pouco “platônicos” e na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Assim que um desejo é satisfeito, já não há a falta, mas começaríamos a desejar outra coisa que nos falta e não nos sentiríamos felizes, novamente. Isto é cíclico!
Imagino meu amigo, o que citei no começo, me fazendo a seguinte pergunta:
- Ok, Ana. Na sua visão eu tenho tudo, então me responda: o que me falta para ser feliz quando tenho tudo para ser e não sou?
Minha resposta seria única, direta e reta:
- Falta-lhe sabedoria, em outras palavras, SABER VIVER.
E, ainda, como sei que ele fala muito bem francês, diria: les temps dapprendre à vivre Il est déjà trop tard (quando aprendemos a viver, já é tarde demais).
Querido amigo, pare de viver pensando no “como eu seria feliz se...”, pois ora o se não se realiza, e você é infeliz; ora ele se realiza, e você nem por isso é feliz.  Relembrando uma frase de Woody Allen: como eu seria feliz se fosse feliz! Aprenda a viver o hoje com sabedoria, como Comte diz no livro dele, alcance a felicidade em ato: desejar o que tem, o que faz, o que é – o que não falta. Esta é a felicidade que não espera nada.
Tenho 31 anos, não realizei metade das coisas que eu imaginava quando tinha 16 anos. Com esta idade eu já imaginava ter saído da casa dos meus pais, ter me casado, tido 6 filhos, estar muito bem profissionalmente, ter viajado o mundo inteiro, mas, por obra do destino, ou talvez mesmo de Deus que colocou tudo isto um pouco mais pra frente, talvez com 35 anos, não realizei e nem por isso sou infeliz, pelo contrário, sou muito feliz! Aprendi que se eu ficar sempre em busca da felicidade absoluta, vou me proibir de viver as felicidades relativas e vou me tornar infeliz. Aprendi, também, que eu devo parar de sonhar minha vida...Que devo esperar um pouco menos e devo agir um pouco mais.
Por fim, transcrevo o que Mahabharata disse no livro memorial da espiritualidade indiana: “Só se é feliz quem perdeu toda a esperança, porque a esperança é a maior tortura que há, e o desespero, a maior felicidade”.

Não, não amputei minha esperança, aliás, continuo tendo, mas deixei de viver em Platão e passei a viver em Spinoza. Hoje amo e sou feliz com o que não me falta.