“Sem apego. Sem melancolia. Sem saudade. A ordem é desocupar lugares. Filtrar emoções.” (Caio Fernando de Abreu)
E foi lendo estas palavras que comecei minha faxina. Tinha na cabeça que tudo o que não me servia mais (objetos, roupas, sentimentos, momentos e, inclusive, pessoas) seria posto em uma caixa e jogado fora.
Comecei pela caixa que se encontrava no lugar mais alto do armário. Era uma caixa rosa – choque bem bonita. Imaginei que tivessem coisas interessantes nela, pois antigamente eu tinha mania de colocar coisas que gostava em lugares os quais eu achava bonito. Realmente eu estava certa. Abrindo a caixa rosa – choque, encontrei várias cartinhas escritas por amigos da época do colégio. Logo, sem nem pensar duas vezes, sentei em minha cama e comecei a abrir e ler de uma em uma.
Várias cartas tinham em seu teor juras de amizade eterna. Outras, com elogios à minha alegria e minhas gargalhadas. Confesso que chorei! Chorei de alegria em ver o quanto as pessoas gostavam de mim, mas chorei, também, de tristeza, pois não dei, talvez, o devido valor àquelas lindas palavras escritas em forma de versos infantis.
Fui acometida por um sentimento saudosista, praticamente um Casimiro de Abreu (quem nunca leu o poema “Meus oito anos”?):
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! (...)
Atribui-se tradicionalmente aos portugueses a criação do conceito de “saudade”, com base na aglutinação de “solidão” e “saudar”. Deve ser por isto que dizem que a palavra “saudade” é considerada sem par noutras línguas e que é a única que exprime misteriosa multiplicidade de sentimentos. Algumas trazem conceitos próximos. Em inglês, saudade é I miss you, que quer dizer sinto sua falta; em francês é souvenir, que significa lembrança; em italiano ricordo affetuoso, recordação afetuosa; em alemão, a palavra utilizada para tentar se descrever o conceito de saudade é sehnsuch. No Brasil há, inclusive, o dia da saudade, que é comemorado oficialmente em 30 de Janeiro. Na verdade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja exclusiva deste. Afinal, a saudade é universal.
Resolvi pegar a caixa verde – limão situada uma prateleira abaixo de onde estava a rosa – choque. Mais uma vez acertei que algo de bom teria dentro dela. Lá se encontravam vários e-mails, fotos e cartas da época que morei na Austrália. Época muito boa da minha vida, amigos inesquecíveis! Fui passando foto por foto e sentindo, no fundo do meu âmago, uma saudade que talvez eu nunca tivesse sentido. Isto me fez parar e fazer um exercício que minha psicóloga me ensinou. Comecei a ver de onde estava vindo este sentimento e pensar nele. Percebi que pela saudade, podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e, assim fazendo, trazer os tempos especiais e desejados de volta. Trouxe de volta tão fielmente, que tive a impressão de estar sentindo o cheiro das ruas de Sydney, o vento de Bronte Beach, o barulho dos pássaros em Blue Mountains, as luzes da cidade de Surfers Paradise e a calma de Byron Bay.
Retornei ao mundo real e outras três caixas me chamaram a atenção. Eram de diferentes tamanhos, mas todas com uma estampa de zebra. Abri as três de uma vez, joguei todo o conteúdo delas sobre minha cama e comecei a abrir aleatoriamente álbuns de fotos, cartas e mais cartas, telegramas! Isto existe e eu recebi vários! A cada momento, vendo cada coisinha e seus detalhes, percebi que ali tinha vida e, principalmente, muito amor! Mas, também, ausência. Cheguei à conclusão que o amor e a ausência são os pais da saudade. Quando sentimos saudade, a solidão se torna uma decorrência da ausência do ser que amamos, desta forma passamos a saudá-lo simbolicamente, evocando, mais uma vez, sua presença junto de nós. Neste momento, eu já não evocava a presença de uma única pessoa que amei ou um único momento, mas vários! Vários amigos que fizeram parte da minha história, vários momentos felizes que passei em Arraial D’Ajuda, viagens a diversos lugares, principalmente a que fiz ao Hawaii, momentos chatos, mas felizes na faculdade. Evocava a minha fase de adolescente que eu inventava códigos para escrever bilhetinhos para as amigas (achei o alfabeto inteiro em código dentro destas caixas); os piqueniques com a turma da rua...
É... a saudade realmente é universal não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e sentimento vividos de eternidade.
A título de curiosidade, um dos primeiros indivíduos a cantar a saudade, eternizando-a, foi Luís de Camões, como se constata no soneto Alma minha gentil,que te partiste, em que o poeta revela uma enlutada mágoa. Não suportando a dor da separação, pretende partir rapidamente para o Céu, como única hipótese de um reencontro com sua amada.
No final do dia e depois de tantas lembranças revividas, consegui fazer a faxina. Joguei muita coisa fora, principalmente umas que me remetiam a sentimentos ruins. Enterrei pessoas da minha memória, mas ao mesmo tempo ressuscitei em meu coração algumas que de fato hoje se encontram, talvez, em outra vida. E, além disto, cheguei à conclusão que a saudade é uma força vital que ultrapassa a realidade cotidiana e atinge outra dimensão. Pra mim, ela perfaz uma espécie de itinerário místico no qual as palavras não podem expressar.
A saudade... ah, a saudade! Ela situa-se na esfera do inefável!
Comecei pela caixa que se encontrava no lugar mais alto do armário. Era uma caixa rosa – choque bem bonita. Imaginei que tivessem coisas interessantes nela, pois antigamente eu tinha mania de colocar coisas que gostava em lugares os quais eu achava bonito. Realmente eu estava certa. Abrindo a caixa rosa – choque, encontrei várias cartinhas escritas por amigos da época do colégio. Logo, sem nem pensar duas vezes, sentei em minha cama e comecei a abrir e ler de uma em uma.
Várias cartas tinham em seu teor juras de amizade eterna. Outras, com elogios à minha alegria e minhas gargalhadas. Confesso que chorei! Chorei de alegria em ver o quanto as pessoas gostavam de mim, mas chorei, também, de tristeza, pois não dei, talvez, o devido valor àquelas lindas palavras escritas em forma de versos infantis.
Fui acometida por um sentimento saudosista, praticamente um Casimiro de Abreu (quem nunca leu o poema “Meus oito anos”?):
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! (...)
Atribui-se tradicionalmente aos portugueses a criação do conceito de “saudade”, com base na aglutinação de “solidão” e “saudar”. Deve ser por isto que dizem que a palavra “saudade” é considerada sem par noutras línguas e que é a única que exprime misteriosa multiplicidade de sentimentos. Algumas trazem conceitos próximos. Em inglês, saudade é I miss you, que quer dizer sinto sua falta; em francês é souvenir, que significa lembrança; em italiano ricordo affetuoso, recordação afetuosa; em alemão, a palavra utilizada para tentar se descrever o conceito de saudade é sehnsuch. No Brasil há, inclusive, o dia da saudade, que é comemorado oficialmente em 30 de Janeiro. Na verdade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja exclusiva deste. Afinal, a saudade é universal.
Resolvi pegar a caixa verde – limão situada uma prateleira abaixo de onde estava a rosa – choque. Mais uma vez acertei que algo de bom teria dentro dela. Lá se encontravam vários e-mails, fotos e cartas da época que morei na Austrália. Época muito boa da minha vida, amigos inesquecíveis! Fui passando foto por foto e sentindo, no fundo do meu âmago, uma saudade que talvez eu nunca tivesse sentido. Isto me fez parar e fazer um exercício que minha psicóloga me ensinou. Comecei a ver de onde estava vindo este sentimento e pensar nele. Percebi que pela saudade, podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e, assim fazendo, trazer os tempos especiais e desejados de volta. Trouxe de volta tão fielmente, que tive a impressão de estar sentindo o cheiro das ruas de Sydney, o vento de Bronte Beach, o barulho dos pássaros em Blue Mountains, as luzes da cidade de Surfers Paradise e a calma de Byron Bay.
Retornei ao mundo real e outras três caixas me chamaram a atenção. Eram de diferentes tamanhos, mas todas com uma estampa de zebra. Abri as três de uma vez, joguei todo o conteúdo delas sobre minha cama e comecei a abrir aleatoriamente álbuns de fotos, cartas e mais cartas, telegramas! Isto existe e eu recebi vários! A cada momento, vendo cada coisinha e seus detalhes, percebi que ali tinha vida e, principalmente, muito amor! Mas, também, ausência. Cheguei à conclusão que o amor e a ausência são os pais da saudade. Quando sentimos saudade, a solidão se torna uma decorrência da ausência do ser que amamos, desta forma passamos a saudá-lo simbolicamente, evocando, mais uma vez, sua presença junto de nós. Neste momento, eu já não evocava a presença de uma única pessoa que amei ou um único momento, mas vários! Vários amigos que fizeram parte da minha história, vários momentos felizes que passei em Arraial D’Ajuda, viagens a diversos lugares, principalmente a que fiz ao Hawaii, momentos chatos, mas felizes na faculdade. Evocava a minha fase de adolescente que eu inventava códigos para escrever bilhetinhos para as amigas (achei o alfabeto inteiro em código dentro destas caixas); os piqueniques com a turma da rua...
É... a saudade realmente é universal não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e sentimento vividos de eternidade.
A título de curiosidade, um dos primeiros indivíduos a cantar a saudade, eternizando-a, foi Luís de Camões, como se constata no soneto Alma minha gentil,que te partiste, em que o poeta revela uma enlutada mágoa. Não suportando a dor da separação, pretende partir rapidamente para o Céu, como única hipótese de um reencontro com sua amada.
No final do dia e depois de tantas lembranças revividas, consegui fazer a faxina. Joguei muita coisa fora, principalmente umas que me remetiam a sentimentos ruins. Enterrei pessoas da minha memória, mas ao mesmo tempo ressuscitei em meu coração algumas que de fato hoje se encontram, talvez, em outra vida. E, além disto, cheguei à conclusão que a saudade é uma força vital que ultrapassa a realidade cotidiana e atinge outra dimensão. Pra mim, ela perfaz uma espécie de itinerário místico no qual as palavras não podem expressar.
A saudade... ah, a saudade! Ela situa-se na esfera do inefável!
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