Desde pequena vejo minha mãe quase tendo um “piripaque” quando falamos sobre morte. É engraçadíssimo, afinal tranquilidade sobre as coisas da vida é um dos ensinamentos que os pais devem passar para os filhos.
Tento, muitas vezes, entender o motivo dela não aceitar tão bem a morte, afinal, quando era pequena perdeu para o tétano uma irmã a qual era muito apegada. Creio que a morte quando somos crianças é mais pesarosa que quando somos adultos.
Tem seis meses que sofro pela morte de um grande amigo. Desde então tenho pensado muito sobre este assunto que tanto me atormenta.
Neste meu tempo ocioso, resolvi ler algumas coisas que pudessem me trazer um conforto maior, pois cheguei à conclusão que devo me preparar psicologicamente para este acontecimento que é inevitável para todos.
Li passagens na bíblia e confesso que não me senti tão confortável assim com a morte. Não entrarei no mérito, mesmo porque não costumo discutir sobre religião, política e futebol.
Resolvi procurar algo no Senhor Google que pudesse me descrever a morte e, quando coloquei a palavra, apareceu para mim o seguinte: filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.Como num estalo, lembrei que assim como pude encontrar ensinamentos bons sobre a felicidade na filosofia, poderia encontrar alguma coisa que talvez saciasse esta minha sede de respostas sobre este assunto que tanto me amedronta.
Logo achei um livro chamado Ensaios do filósofo Michel Montaigne. Em seu Capítulo XIX (um dos mais conhecidos desta obra), Montaigne desenvolve pensamentos sobre uma das suas maiores preocupações que é “morrer bem”. Nele, num mosaico de exemplos e argumentos que lembram o caráter inevitável e imprevisível da morte, o grande filósofo parece chegar a um acordo com seu medo justificando, assim, o fato de que a morte seja “premeditada”, isto é, meditada com antecedência.
É exatamente com a frase que achei no Google que ele começa este capítulo. Peço licença para repetir: filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.
Filosofia vem do grego e significa “amor à sabedoria”, desta forma, ele explica que a sabedoria e a razão do mundo se concentram, afinal, no ponto de nos ensinar a não ter medo de morrer.
Minha irmã mais nova é engraçadíssima. O medo dela de morrer é imenso que algumas atitudes dela se tornam cômicas. Ela vive num contínuo tormento que nada consegue aliviar. Ela é capaz de ver o perigo da morte em qualquer coisa que ela faça. Vamos supor que ela esteja passando roupa, caso ocorra algum pensamento ruim na cabeça dela, ela já começa a prever um fio do ferro desencapado; depois ela tomando aquele choque monstruoso e o marido dela chegando em casa depois de 8 horas de trabalho e encontrando ela lá, estatelada no chão queimada! Seria trágico se não fosse cômico, ou seria cômico se não fosse trágico.
A morte é o fim da nossa caminhada, é o objetivo necessário de nossa mira; se nos apavora tanto, como é possível darmos um passo à frente sem sermos tomados pela ansiedade?
No caso da minha irmã, é impossível ela se proteger o suficiente, de hora em hora, para evitar um futuro perigo. Isto também serve para nós! Não conseguimos medir passo a passo do que iremos fazer pensando em evitar alguma tragédia.
Vamos a alguns exemplos que pra gente é extremamente impossível acontecer, mas no final são triviais e frequentes: um senhor, 50 anos, bem saudável aparentemente, está em uma parada de ônibus esperando a condução quando tem um ataque fulminante do coração (isto aconteceu ontem na EPTG). Meu amigo, o que citei logo no começo, foi uma morte absurda, nunca esperaria. Ele foi feliz para uma festa e lá o amigo dele se engraçou com uma mulher. Na saída da festa levou 9 tiros do bandido, namorado da mulher.
Diante destes exemplos e de vários outros que eu poderia citar aqui, só me vem uma pergunta: como é possível nos desfazer do pensamento da morte já que parece que a todo instante ela vai nos alcançar? Afinal, creio que seja bem mais difícil para nós aceitarmos a morte quando as pessoas estão saudáveis que quando elas estão doentes.
Foi respondendo a esta pergunta que lendo Montaigne consegui, talvez, tirar um pouco deste meu tormento. Ele escreveu, mais ou menos com estas palavras, o seguinte: “sou da seguinte opinião de que importa como ela é, contanto que não me preocupe com ela. Seja qual for a maneira, não posso me proteger, então como não sou pessoa de recuar, basta-me passar os dias como me dá prazer e adotar o melhor jogo que eu puder.”
Confesso que lendo isto, percebi que o que devemos fazer é tirar esta estranheza e nos acostumar com ela e, diante de nossa própria morte, devemos nos enrijecer e nos fortalecer. Afinal, ao nascermos, morremos. Seguindo a sabedoria “Orleiana” quando indagado como está passando (Orlei é meu pai), ele responde: estou bem, não tanto quanto, afinal cada dia que passa caminho para a morte (nunca imaginei que isto faria tanto sentido para mim).
Devemos, também, ter sempre a lembrança da nossa condição, pois entre festas e alegrias, em quantos modos podemos estar na mira da morte? Os egípcios, não sei se com sabedoria ou não, no meio de suas festas e entre seus melhores banquetes mandavam entrar uma anatomia seca de um homem para servir de advertência aos presentes. Acho que esta era a forma deles passarem exatamente o que disse acima, de que devemos viver, beber, festejar, nos alegrar, pois o presente já terá passado e nunca mais poderemos chamá-lo de volta. Bem, o Márcio, o amigo lá de cima, apesar de algumas pessoas da minha família terem falecido, foi a pessoa que mais me trouxe à tona esse sentimento ruim que a morte nos traz. Não sei em que vocês acreditam, mas eu acredito que ninguém morre antes da hora. Onde quer que nossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não está na duração: está no uso que dele fizemos. Existem pessoas que viveram muito tempo, mas pouco viveu. Em contrapartida, existem aquelas que pouco tempo viveram, mas muito viveu. Chego à conclusão que ainda que em nossas cabeças o tempo de pessoas queridas que se foram não estivesse concluído, a vida deles estava.
Para concluir, deixo algo interessante que li no livro de Montaigne. Pelo fato da palavra “morte” atingir muito rudemente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de mau agouro, os romanos aprenderam a suavizá-la e, em vez de dizer “ele morreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam-se, contato que seja vida, ainda que passada. Enfim, hoje passarei a falar igual aos romanos: minha avó Ana, meu avô Malaquias, meu amigo Márcio e vários outros amigos os quais me eram de grande importância...Viveram, ELES VIVERAM!
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