domingo, 15 de janeiro de 2017

CONVERSA ENTRE TIA E SOBRINHO (por Ana de Oliveira)

Aqui em casa, a hora do almoço sempre é o momento de confraternizar. Sentamos todos à mesa e ficamos colocando o papo em dia.
Meus sobrinhos estão de férias, desta forma eles estão vindo passar os dias aqui em casa. E, para o deleite dos adultos da família, conversar com os pequenos na hora do almoço é sempre um momento de muita alegria!
Hoje, estava eu almoçando com os dois, quando o Yukio (8 anos) me fez a seguinte pergunta:
- Tia Nana, qual polícia você prefere: a militar, a civil ou a federal?
Fiquei pensando um pouco, medindo as palavras, pois crianças nesta idade repetem tudo o que ouvem e respondi:
- Yukio, eu gosto de todas elas! Cada uma com o seu trabalho. A polícia militar com o trabalho ostensivo é bem interessante. A civil e a federal com as investigações dos crimes também!
Yukio olhou pra mim pensativo e disse que achava a Militar mais legal, pois fazia ronda! Concordei com ele e continuamos almoçando.
Após engolir mais uma colherada de arroz, feijão, bife e batata frita, ele me indagou novamente:
- Tia Nana, você gosta de ser policial?
Jesus amado, hoje o Yukio tirou para me interrogar sobre a polícia. Respondi:
- Amo ser policial, meu amor! O trabalho às vezes é difícil, não é reconhecido, mas eu gosto do que faço. Às vezes fico triste, mas tento não internalizar e tento manter a alegria para fazer um trabalho bom.
Ele me olhou com uma carinha triste e voltou a perguntar:
- Mas titia, por que você às vezes fica triste?
- Ahhhh Kikio, por vários motivos, mas o que mais me deixa triste é ver que muita gente não gosta da polícia. Tentamos fazer um trabalho bom, atendê-los bem, mas mesmo assim vejo muitas pessoas falando mal da gente.
Gente, não é porque é meu sobrinho, mas o Yukio é um menino fenomenal. Costumo dizer que ele é diferenciado. Ele se voltou pra mim e novamente disse:
- Titia, eles não gostam igual os bandidos não gostam de vocês?
Isso, Kikio, mas a diferença é que muitos não são bandidos. São pessoas como nós - eu disse.
Ele, com o semblante pensativo, virou pra mim e disse:
- Titia, pensando bem, acho que os bandidos gostam de vocês!
Fiquei com cara de interrogação e ele foi logo completando:
- Sabe por que? Porque eles querem visitar vocês, mas como não pensam direito em ir apenas lá falar um oi, eles cometem um crime para visitar! Ficam presos, depois que saem da cadeia, ficam com saudades, voltam a cometer algum crime e vão lá pra ver vocês novamente!
Não me contive, dei uma boa risada e concordei com ele.
Yukio completou:
- Titia, quando um bandido aparecer lá novamente, você fala assim com ele: você estava com saudades da gente, por isso veio aqui novamente?
É... Yukio, você é maravilhoso! Realmente tem um monte de bandido que retorna à Delegacia e, na próxima vez, perguntarei se eles ficaram com saudades!
Crianças e sua sabedoria ingênua!

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A MORTE DAS RELAÇÕES REAIS (por Ana de Oliveira)



Vendo aqueles dedos grudados no celular e que não paravam de digitar, eu disse:

- Lindo, você está se tornando antissocial. Não para de mexer no whatsapp!

Ele, sem nem olhar para o lado e se dar conta do que eu havia dito, respondeu:

- Aham.

E o silêncio se instalou. Eu fiquei lá, pensativa e com o semblante triste. Se ele soubesse que desde às 16:00 eu já comecei a ser mais feliz, pois sabia que o encontraria às 19:00, teria me dado um pouco mais de atenção...

Com a chegada da tecnologia, as relações humanas não são mais as mesmas há muito tempo. Este avanço tem modificado as relações em vários setores, dentre eles, as amizades. A criação das redes sociais veio para ajudar a “encurtar distâncias” por meio de mensagens instantâneas, em tempo real, mas ao mesmo tempo veio para aumentar a distância entre pessoas que antes eram tão próximas.

O que vejo hoje é uma geração de pessoas solitárias que deixaram de dar valor às relações reais para ficarem em relações virtuais.

Pessoas que nunca se viram, agora são “amigas” em redes sociais. No dia do aniversário se cumprimentam como se fossem “velhos amigos”, pois há de convir que é muito fácil (e prático) sair manifestando carinho e amor por intermédio da internet. Mas quando se cruzam na rua, sequer se dão ao trabalho de dar bom dia.

Se isso é estranho? Pelo menos para mim é sim! Tenho a impressão que você está em real interação com o outro, mas isso não corresponde a total realidade, pois quando você vai para a vida real, a pessoa que estava acostumada a te ler nas diversas ferramentas (Facebook, Whatsapp, Twitter, Telegram, etc.), pessoalmente pode não te escutar, não dar a devida atenção e não valorizar a pessoa que você é, sua fala, seu conteúdo.

Dia desses li que alguns psicólogos, por meio de estudos, chegaram à conclusão que o Whatsapp pode gerar o mesmo vício de uma droga. Uma droga que apresenta sintomas externos como, por exemplo, a incapacidade de relacionar-se e olhar nos olhos do outro.

Tenho que concordar, pois minha experiência narrada no começo mostra exatamente isto. Fiquei ali parada, pensando por um instante no que fazer. Eu realmente precisava conversar algumas coisas com ele e gostaria que me escutasse, que me desse um pouco de atenção. Mas eu tinha uma concorrente desleal: a tecnologia que me ofuscava e diminuía meu brilho aos olhos daquela pessoa, que tantas vezes disse que minha companhia era ótima! Tornei-me uma presença quase invisível... Quase! Não me tornei totalmente invisível porque tinham outros três amigos dele sentados a mesa, os quais conversavam sobre mulheres e “baladas” e, um, ao menos, às vezes se virava pra mim e falava algo tentando me colocar no assunto. Mas minha vergonha e minha tristeza eram tão grandes que eu só conseguia concordar com a cabeça às indagações.

Engoli o choro e me mantive firme na minha solidão acompanhada. Toda aquela conversa no Whatsapp e Telegram deveria ser mais atraente e, talvez, tinha mais a oferecer que eu. Mais cultura, mais assunto, mais sorrisos, mais carinho, mais amor, mais brilho.

Eu concordo que os aparelhos tecnológicos devem ser ferramentas de apoio, mas nunca poderão substituir um encontro com uma pessoa, uma palavra de carinho ou um abraço.

É preciso dar a cada coisa seu uso adequado. Só sei que, naquele dia, meu coração estava determinado que se fosse para falar, teria que ser com ele e mais ninguém. Tem coisas que meu coração fala só pra quem sabe escutar. O que existia dentro de mim, naquele dia, eu não abriria para qualquer um. E, contrariando toda a tecnologia, a comunicação de coração para coração é um verdadeiro mistério e, infelizmente, o outro não estava disposto a ser um bom ouvinte.

Não quero colocar a tecnologia como vilã das relações humanas, afinal, elas não têm “vida” própria, nós que damos uma vida à elas. Por não querer mais ser tratada assim que vou me “policiar”. Recuso-me a deixar de ver e sentir o ser humano na sua melhor essência; a real essência.

Quanto ao “lindo”, fui embora naquele dia com o coração partido e lágrimas nos olhos. Já em minha casa, num último pedido de atenção, mandei uma mensagem no Whatsapp pedindo um tempo para uma conversa. Sabia que através deste meio eu teria acesso a ele. Ledo engano meu: mensagem lida, não respondida e até hoje esperando a oportunidade de dividir tudo o que está aqui guardado.

Ele perdeu a chance de fazer alguém se sentir mais feliz. Em contrapartida, EU NUNCA PERDEREI ESTA CHANCE.

A FELICIDADE ESTÁ NOS DETALHES... (por Ana de Oliveira)



Felicidade é ir ao estádio assistir ao jogo do Brasil mesmo ele perdendo de 7X0 para a Alemanha.


Felicidade é vestir o manto sagrado de um time mesmo você não torcendo pra ele só para agradar uma pessoa.


Felicidade é montar uma cabana de cobertor no meio da sala para ficar brincando de índio com os sobrinhos mesmo tendo 33 anos.


Felicidade é você dizer sempre a verdade, mesmo as pessoas achando que você não está num estado são.


Felicidade é mentir para seus sobrinhos que Papai Noel existe e vê-los alegres escrevendo uma cartinha para o bom velhinho.


Felicidade é cantar “I Will Survive” no chuveiro.


Felicidade é ter alguém que lhe coce as costas.


Felicidade é ir ao show da sua banda preferida.


Felicidade é voltar a sonhar que você pode voar e até sentir o vento bater nos cabelos.


Felicidade é você olhar para uma pessoa e ter pensamentos maliciosos, mas ela nem imaginar o que se passa na sua cabeça.


Felicidade é deitar na grama do quintal e ficar olhando para o céu e vendo desenhos nas nuvens.


Felicidade é manter seus sonhos vivos sem precisar da ajuda de aparelhos.


Felicidade é engessar seus braços e pernas por umas 12 vezes e sempre ficar empolgada com as pessoas deixando recadinhos.


Felicidade é permitir que a natureza te anestesie.


Felicidade é se sentir rica no começo do mês e pobre cinco dias após.


Felicidade é malhar o músculo, ouvir Zeca Baleiro e colocar silicone.


Felicidade é curtir a lua cheia tomando um chocolate quente mesmo você sendo intolerante a lactose.


Felicidade é se deparar na esquina com um canguru albino e poliglota.


Felicidade é viajar!


Felicidade é ter um beijo roubado.


Felicidade é ganhar um beijo de língua de tirar o fôlego.


Felicidade é você equalizar a pessoa amada na frequência que só vocês sabem.


Felicidade é ter uma mãe que todo dia diz que te ama.


Felicidade é ter uma irmã que acorda de bom humor gritando: Buenos dias, família linda!


Felicidade é ter uma outra irmã que te leva para mais perto de Deus.


Felicidade é ter amigos que combinam as coisas e depois somem, mas você releva, pois sabe que eles são assim e nunca irão mudar.


Felicidade é ter três amigos-irmãos.


Felicidade é foda!


Felicidade é ser livre.


Felicidade é não ter preconceito.


Felicidade é o casamento dos meus amigos gays! Como desejo isto a eles...


Caramba! Felicidade é um dia eu ficar grávida e não precisar fazer cesárea!


Felicidade é comer doce de leite após meses de dieta.


Felicidade é estar viajando e receber uma ligação, de uma pessoa especial, às 22:45 e ouvir que ela chega no dia seguinte às 11:30.


Felicidade é caminhar da Praia dos Corais até a Praia de Pitinga em silêncio, ouvindo apenas o barulho do mar e a respiração da pessoa que te acompanha.


Felicidade é sair com as amigas e beber todas.


Felicidade é chorar até não poder mais porque levou um fora.


Felicidade é no outro dia estar serena e saber que essas coisas acontecem na vida.


Felicidade é fazer 10 barras! Bota felicidade nisto!


Felicidade é decifrar a caligrafia de uma receita médica.


Felicidade é cagar e andar para o que pensam da gente.


Felicidade é chorar para as amigas num happy-hour.


Felicidade é deitar no colo do pai e adormecer.


Felicidade é enterrar velhos ressentimentos.


Felicidade é perdoar.


Felicidade é dormir com dois cobertores e com o ar condicionado ligado em 18 graus.


Felicidade é ter um dom quando imaginava-se ter nenhum.


Felicidade é poder escrever com MINH'ALMA.


Felicidade é o que sinto hoje e posso não sentir amanhã, mas mesmo assim estarei feliz.


Felicidade é ser e ter tudo isto!Felicidade é AMAR E SER FELIZ COM O QUE NÃO ME FALTA!

sexta-feira, 27 de março de 2015

A MISTERIOSA FRAGILIDADE DOS VÍNCULOS HUMANOS (por Ana de Oliveira)

Há algum tempo venho observando algumas banalizações na vida, e uma delas é em relação ao amor, aos sentimentos. E, observando, percebi que nada melhor que usar pessoas que apareciam em minha vida para fazer um “workshop”.
Tenho visto muitos homens e mulheres que gostariam de “relacionar-se”, no entanto, por estarmos num tempo de furiosa “individualização” temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para “relacionar-se”.
Não sei se por questão de destino, de uns 4 meses pra cá, andei conhecendo muita gente divorciada, o que me fez perceber com grande tristeza que a definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda.
As pessoas andam muito individualistas. Caso o(a) companheiro(a) não se encaixe nos padrões estipulados pelo(a) parceiro(a), o tchau é facilmente dito e cada um pega um rumo diferente. Isto porque ainda estou falando apenas da individualidade, não entrei na seara dos valores invertidos, pois conversando com vários casais, vejo que lealdade, fidelidade e respeito não estão sendo colocados em prática. Saindo deste grupo, conheci também muitas pessoas solteiras reclamando de que parecem estar numa vitrine de loja e que são escolhidas, “consumidas” e depois jogadas fora (último grupo no qual me encaixo).
Deve ser por causa desta visão, que Erich Fromm em seu livro “A arte de amar” escreveu que “a satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras.” E mais a frente acrescenta, com tristeza, que em uma cultura consumista como a nossa na qual são raras essas qualidades e que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista.
Nestes dois últimos meses de 2014, Lois foi refém do destino. Destino este que a fez viver de “quases” por um tempo. Quase se encontrou com ele, quase foi aos mesmos eventos, quase tiveram suas ruas se cruzando diversas vezes, até que um dia o “quase” foi interrompido. Em uma conversa, Lois me confessou que preferia que tudo tivesse permanecido no “quase”, pois até então ela não tinha se atentado ao fato de que no destino há pelo menos dois seres, cada qual uma grande incógnita na equação do outro. Incógnita a qual ela estava bem disposta a decifrar e o que não lhe faltou foi disposição para isto. O destino de Lois tinha um nome, Clark.
Tenho observado que as pessoas hoje em dia estão entrando em relacionamentos irrelevantes. Relacionamentos banhados a incertezas. Parece que para o parceiro, a outra pessoa é uma ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado. Desta forma, hoje vejo as pessoas sempre na defensiva, parece que aprenderam que o compromisso com alguém é a maior armadilha a ser evitada.
E, se os compromissos são irrelevantes quando as relações deixam de ser honestas e parecem improváveis que se sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes, vide os tão famosos aplicativos amorosos. Antes já parecia que todos estavam em prateleiras expostos, mas hoje é a realidade. Tinder, Zoosk, etc., são apenas “lojas” virtuais que expõem pessoas e parece leilão. Quem clicar mais rápido em uma pessoa e o aplicativo acusar que a outra também clicou nela, pronto! Vendida!
Lois, em verdade meu alter ego freudiano, recusa-se a entrar neste mundo novo. Ela é real, alma inundada de sentimentos verdadeiros. Tem a absoluta certeza que as pessoas não são descartáveis, desta forma não age como se fossem. Lois não gosta de barganhar sentimentos e muito menos de agir conforme a sociedade impõe. Não se faz de difícil; se estiver disposta, corre atrás e adianta o primeiro passo. E quem disse que ela tem medo de se sentir vulnerável? Nada disto! Se ela estiver sentindo, vai dizer para quem quiser ouvir o quanto gosta daquele destino lá em cima citado. Ela faz o que o coração dela tem vontade, única e exclusivamente, porque assim deseja. Acredita que, caso seu destino não estivesse disposto a correr os riscos, não a teria desafiado a jogar.
Mas a história que Lois me contou não teve um final feliz. Queria ela que isto tivesse ocorrido. Seu destino, Clark, estava ávido por caçar em outras pastagens. E, mais uma vez, Lois se sentiu como se fosse uma transação comercial. Claro que tudo que ela precisava de Clark era um mínimo de retorno, mas aprendeu da forma mais cruel que não se pode barganhar uma troca.
Enfim, para o meu alter ego e para outras pessoas que possam ler tudo que escrevi, só posso reproduzir algo que li estes dias: “devemos ter discernimento para diferenciar indiferença de descuido. Coragem para guardar o ego, o apego e aquela vontade tentadora de “chegar em primeiro lugar” em um cantinho bem escondido da nossa alma. Muita fé, para acreditar que onde a gente deposita nossa vivência alguém transformará nossa prece em disponibilidade, respeito e merecimento. E que nos bancamos sozinhos e nos bancamos com um coração.”
(PS.: qualquer semelhança com histórias de pessoas próximas ou até mesmo minhas, não é mera coincidência.)

A TERAPIA DO ABRAÇO (por Ana de Oliveira)

“Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam.” (Clarice Lispector)
Entre várias nuances que podem caracterizar as relações interpessoais, tem uma que certamente me interessa individuar: o abraço, pois dentro dele abriga muitas outras nuances.
Ele é algo muito complexo, apesar de não aparentar. Enquanto os dois respiram juntos, devagar e descontraidamente, prestam atenção no sentimento de compaixão que flui de um coração para o outro.
Há quem diz que existem vários tipos: de urso, de amigo, de namorados, virtual, protetor, roubado, de mãos, de despedida, terapêutico e por aí vai. No Brasil existe até o dia do abraço que é comemorado no dia 22 de maio.
Todos que me conhecem sabem o tanto que prezo por esta forma de carinho. Nele tento passar o que há de melhor em mim, um amor puro e incondicional, pois sempre o concedo do fundo do meu coração.
Tenho uma amiga que não gosta de abraços. É até engraçado se não fosse triste. Toda vez que a encontro tenho aquela vontade imensa de abraçá-la, mas lembro-me o quão desconcertada ela fica. Uma vez, aqui em casa, eu e minha irmã falamos que iríamos fazer a terapia do abraço com ela, então a abraçamos ao mesmo tempo, mas acho que não surtiu muito efeito, pois ela logo pediu para a soltarmos.
Fico imaginando o que aconteceu com ela para não gostar deste gesto tão carinhoso, afinal, como já diz a banda Jota Quest em sua música “Dentro de um abraço”: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.
Vivendo esta minha mania de abraçar (não todos, mas pessoas as quais tenho uma grande consideração), formulei minha própria teoria sobre amplexo. Ele é firme e, ao mesmo tempo, leve. Quando sentimos uma irresistível vontade de abraçar alguém, estamos demonstrando a sensibilidade da nossa alma. É como dizermos que identificamos a outra pessoa como sendo alguém especial. Normalmente, quando não se tem palavras para expressar um sentimento, nada se diz: apenas se abraça a outra pessoa com o coração. E, quando se é sincero, não conseguimos esconder o que sentimos, pois o toque é a manifestação mais forte que possuímos.
Como já dizia o matuto mineiro em seu discurso sobre a tecnologia do abraço:
“O abraço é bom por causa do coração. Quando você abraça alguém, você está fazendo massagem no coração e o coração do outro é massageado também! Mas não é só isso não... Aqui está a chave do maior segredo de tudo: é que quando a gente abraça alguém, nós ficamos com dois corações no peito!”
É...concordo com o matuto e ouso ainda completar que os abraços deveriam ser os únicos apertos que a gente deveria passar na vida.
Sintam-se abraçados, mesmo que virtualmente!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O SUPEREGO INACREDITÁVEL (por Ana de Oliveira)

“The things, you say
You’re unbelievable…” (EMF)
Uns meses atrás em uma conversa com minha irmã mais nova, ela me contou que meu cunhado disse que esta música da banda EMF se encaixava perfeitamente a mim e que ele colocaria como toque do celular quando eu o ligasse. Confesso que achei engraçadíssimo quando fui prestar atenção na letra da música. Tudo bem que a única parte que se parece comigo é o refrão que diz: as coisas que você diz... você é inacreditável!
Eu cresci ouvindo várias críticas quanto ao meu modo de pensar e de me expressar. Tiveram épocas que isto realmente me incomodava, tanto que procurei uma psicóloga para ver se eu conseguia mudar ou, simplesmente, me aceitar. Lembro que na última sessão de terapia, indaguei o porquê de ela estar me dando alta, afinal eu não estava curada. Ela, com um sorriso amável no rosto, disse-me: Ana, você não tem problema algum! Cada um tem uma personalidade e a sua é esta. Sua essência! Com o tempo você irá aprender a moldá-la para evitar certos desgastes, apenas isto!
A origem da expressão Personalidade remete-nos para persona, “máscara” utilizada no teatro grego para representar as emoções dos atores. Ela é um elemento relativamente estável na conduta da pessoa. É o que nos torna únicos, diferentes de todos.
Confesso que nunca mais esqueci o que a Dra. Martha me disse naquele nosso último encontro.
Psicólogos dizem que vários fatores influenciam a personalidade de uma pessoa, quais sejam: influências hereditárias, meio social e experiências sociais. A meu ver, nada mais é que uma forma mais fácil de explicar o que Freud já havia proposto nos três componentes básicos estruturais da psique: id, ego e superego.
Desde meu último encontro com a psicóloga, vivenciei várias brigas internas tentando moldar este jeito Ana de ser. Hoje, aos 32 anos, posso dizer que consegui. Moldei da forma mais INACREDITÁVEL que eu poderia. Juntei todos os meus sentimentos, pensamentos, comportamentos, projetos de vida, todas as minhas emoções, atitudes, motivações, tomadas de decisões e coloquei num liquidificador interno. Misturei bem e... voilà! Mistureba que permite que eu me reconheça e seja reconhecida pelas pessoas. Esta mistura heterogênea a qual seus componentes são totalmente perceptíveis representa fielmente o ser humano Ana.
A Ana que nunca deixou de ser o que é, que sempre foi a mesma no espaço e no tempo. Aquela que sempre manteve a identidade para consigo e a diferenciação para com os outros.
Relembrando a estrutura proposta por Freud, vale a pena dar uma breve explicação sobre o superego. Este é a última estrutura da personalidade e se desenvolve a partir do Ego. O superego atua como juiz ou censor sobre as atividades e pensamento do Ego, é o depósito dos códigos morais, modelos de conduta e dos parâmetros que constituem as inibições da personalidade. Freud descreve três funções do Superego: consciência, auto-observação e formação de ideais. Em relação à consciência pessoal, o Superego age tanto para restringir, proibir ou julgar a atividade consciente, porém, ele também pode agir inconscientemente. Quanto à auto-observação, o Superego tem a capacidade de avaliar as atividades da pessoa. A formação de ideais do Superego está ligada ao seu próprio desenvolvimento.
Por fim, para retomar o refrão da música, cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos fatos que o precederam (consciência pessoal do Superego). Acredito que meu cunhado imagina que a maioria dos meus eventos mentais “parecem” ocorrer espontaneamente, mas sinto informá-lo, é ao contrário. Tenho a intenção consciente e a faço por amor em ver as pessoas me olharem com um ponto de interrogação no rosto e mentalmente dizerem: as coisas que você diz são INACREDITÁVEIS! Uma bela massagem no meu SUPEREGO!

sábado, 27 de setembro de 2014

A saudade... ah, a saudade! (Ana de Oliveira)

“Sem apego. Sem melancolia. Sem saudade. A ordem é desocupar lugares. Filtrar emoções.” (Caio Fernando de Abreu)
E foi lendo estas palavras que comecei minha faxina. Tinha na cabeça que tudo o que não me servia mais (objetos, roupas, sentimentos, momentos e, inclusive, pessoas) seria posto em uma caixa e jogado fora.
Comecei pela caixa que se encontrava no lugar mais alto do armário. Era uma caixa rosa – choque bem bonita. Imaginei que tivessem coisas interessantes nela, pois antigamente eu tinha mania de colocar coisas que gostava em lugares os quais eu achava bonito. Realmente eu estava certa. Abrindo a caixa rosa – choque, encontrei várias cartinhas escritas por amigos da época do colégio. Logo, sem nem pensar duas vezes, sentei em minha cama e comecei a abrir e ler de uma em uma.
Várias cartas tinham em seu teor juras de amizade eterna. Outras, com elogios à minha alegria e minhas gargalhadas. Confesso que chorei! Chorei de alegria em ver o quanto as pessoas gostavam de mim, mas chorei, também, de tristeza, pois não dei, talvez, o devido valor àquelas lindas palavras escritas em forma de versos infantis.
Fui acometida por um sentimento saudosista, praticamente um Casimiro de Abreu (quem nunca leu o poema “Meus oito anos”?):
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! (...)
Atribui-se tradicionalmente aos portugueses a criação do conceito de “saudade”, com base na aglutinação de “solidão” e “saudar”. Deve ser por isto que dizem que a palavra “saudade” é considerada sem par noutras línguas e que é a única que exprime misteriosa multiplicidade de sentimentos. Algumas trazem conceitos próximos. Em inglês, saudade é I miss you, que quer dizer sinto sua falta; em francês é souvenir, que significa lembrança; em italiano ricordo affetuoso, recordação afetuosa; em alemão, a palavra utilizada para tentar se descrever o conceito de saudade é sehnsuch. No Brasil há, inclusive, o dia da saudade, que é comemorado oficialmente em 30 de Janeiro. Na verdade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja exclusiva deste. Afinal, a saudade é universal.
Resolvi pegar a caixa verde – limão situada uma prateleira abaixo de onde estava a rosa – choque. Mais uma vez acertei que algo de bom teria dentro dela. Lá se encontravam vários e-mails, fotos e cartas da época que morei na Austrália. Época muito boa da minha vida, amigos inesquecíveis! Fui passando foto por foto e sentindo, no fundo do meu âmago, uma saudade que talvez eu nunca tivesse sentido. Isto me fez parar e fazer um exercício que minha psicóloga me ensinou. Comecei a ver de onde estava vindo este sentimento e pensar nele. Percebi que pela saudade, podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e, assim fazendo, trazer os tempos especiais e desejados de volta. Trouxe de volta tão fielmente, que tive a impressão de estar sentindo o cheiro das ruas de Sydney, o vento de Bronte Beach, o barulho dos pássaros em Blue Mountains, as luzes da cidade de Surfers Paradise e a calma de Byron Bay.
Retornei ao mundo real e outras três caixas me chamaram a atenção. Eram de diferentes tamanhos, mas todas com uma estampa de zebra. Abri as três de uma vez, joguei todo o conteúdo delas sobre minha cama e comecei a abrir aleatoriamente álbuns de fotos, cartas e mais cartas, telegramas! Isto existe e eu recebi vários! A cada momento, vendo cada coisinha e seus detalhes, percebi que ali tinha vida e, principalmente, muito amor! Mas, também, ausência. Cheguei à conclusão que o amor e a ausência são os pais da saudade. Quando sentimos saudade, a solidão se torna uma decorrência da ausência do ser que amamos, desta forma passamos a saudá-lo simbolicamente, evocando, mais uma vez, sua presença junto de nós. Neste momento, eu já não evocava a presença de uma única pessoa que amei ou um único momento, mas vários! Vários amigos que fizeram parte da minha história, vários momentos felizes que passei em Arraial D’Ajuda, viagens a diversos lugares, principalmente a que fiz ao Hawaii, momentos chatos, mas felizes na faculdade. Evocava a minha fase de adolescente que eu inventava códigos para escrever bilhetinhos para as amigas (achei o alfabeto inteiro em código dentro destas caixas); os piqueniques com a turma da rua...
É... a saudade realmente é universal não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e sentimento vividos de eternidade.
A título de curiosidade, um dos primeiros indivíduos a cantar a saudade, eternizando-a, foi Luís de Camões, como se constata no soneto Alma minha gentil,que te partiste, em que o poeta revela uma enlutada mágoa. Não suportando a dor da separação, pretende partir rapidamente para o Céu, como única hipótese de um reencontro com sua amada.
No final do dia e depois de tantas lembranças revividas, consegui fazer a faxina. Joguei muita coisa fora, principalmente umas que me remetiam a sentimentos ruins. Enterrei pessoas da minha memória, mas ao mesmo tempo ressuscitei em meu coração algumas que de fato hoje se encontram, talvez, em outra vida. E, além disto, cheguei à conclusão que a saudade é uma força vital que ultrapassa a realidade cotidiana e atinge outra dimensão. Pra mim, ela perfaz uma espécie de itinerário místico no qual as palavras não podem expressar.
A saudade... ah, a saudade! Ela situa-se na esfera do inefável!