sexta-feira, 21 de março de 2014

A felicidade é desesperante!

Hoje um amigo meu veio com o seguinte discurso:
-Estou sumido porque vou completar 29 anos amanhã e estou deprimido por não ter alcançado tudo o que planejei pra minha vida.
O ser humano é muito esquisito mesmo. Será que o que ele planejou pra vida dele é o que Deus escreveu pra ele? Devia pensar nisto...
Este meu amigo é um cara inteligentíssimo, tem um emprego bom no MPU, fala 3 idiomas (eu acho) perfeitamente, tem uma família que dá apoio a ele, tem saúde, beleza, amigos e ainda tem o disparate de me falar que está deprimido porque não tem o que ele imaginou pra vida dele?
Quando eu estava na faculdade, se não me engano no 7º semestre, tive que fazer aulas de filosofia. Lembro, como se fosse hoje, quando o professor pediu para fazermos um trabalho sobre o livro “A Felicidade, desesperadamente" de André Comte-Sponville (um dos mais respeitados filósofos e ensaístas da atualidade).
Na época, achei meio chato, juro que tive que tomar uns "gorós" para poder entender melhor o livro, mas no final foi uma das melhores leituras que pude fazer na minha vida.
Em seu livro, Comte diz que a felicidade é desesperante. Tal termo “desesperante” não é o sentido extremo da felicidade. Ele emprega a palavra num sentido literal, quase etimológico para designar o grau zero da esperança, a pura e simples ausência de esperança.
Ele começa seu livro fazendo uma citação de Pascal: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar. Se ele se enforca, é para escapar da infelicidade; e escapar da infelicidade ainda é se aproximar pelo menos tanto quanto possível, de uma certa felicidade, nem que ela seja negativa ou o próprio nada.”
Confesso que depois de ler este livro, me surgiu uma certa curiosidade em saber um pouco mais sobre felicidade no mundo da filosofia. Li alguns outros livros sobre o assunto e, mesmo sabendo que os filósofos são ateus, tive que concordar com muitas coisas que diziam. Cheguei à conclusão de que o homem é um ser angustiado de nascença, por isto ele se apega a um Ser Superior para ter a esperança de que as coisas irão mudar e ficarão melhores.  Não estou dizendo aqui que não acredito em Deus ou algo do tipo, mesmo porque as pessoas que me conhecem sabem que acredito Nele. Só estou dando a conclusão que cheguei das minhas leituras.
Várias vezes eu ouço pessoas próximas a mim, dizendo que não são felizes. Sempre os interrompo e digo: olha, você é feliz, só não está no momento.  Não há como se sentir alegre permanentemente e, quem conseguir isto, por favor, me ensina! Buda já dizia: “toda vida é sofrimento”, se você busca uma alegria contínua e soberana, ou mesmo a ausência total de sofrimento e angústia, certamente nunca será feliz! Não existe uma felicidade absoluta e, normalmente, as pessoas não conseguem enxergar isto.
Relembrando o livro de Comte, lá ele diz que ser feliz é, pelo menos numa primeira aproximação, ter o que desejamos.  Agora penso, mas e se eu alcançar o que desejo serei plenamente feliz? A resposta é simples, NÃO! Mesmo porque, citando Platão, “o que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, chego à conclusão que todos somos um pouco “platônicos” e na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Assim que um desejo é satisfeito, já não há a falta, mas começaríamos a desejar outra coisa que nos falta e não nos sentiríamos felizes, novamente. Isto é cíclico!
Imagino meu amigo, o que citei no começo, me fazendo a seguinte pergunta:
- Ok, Ana. Na sua visão eu tenho tudo, então me responda: o que me falta para ser feliz quando tenho tudo para ser e não sou?
Minha resposta seria única, direta e reta:
- Falta-lhe sabedoria, em outras palavras, SABER VIVER.
E, ainda, como sei que ele fala muito bem francês, diria: les temps dapprendre à vivre Il est déjà trop tard (quando aprendemos a viver, já é tarde demais).
Querido amigo, pare de viver pensando no “como eu seria feliz se...”, pois ora o se não se realiza, e você é infeliz; ora ele se realiza, e você nem por isso é feliz.  Relembrando uma frase de Woody Allen: como eu seria feliz se fosse feliz! Aprenda a viver o hoje com sabedoria, como Comte diz no livro dele, alcance a felicidade em ato: desejar o que tem, o que faz, o que é – o que não falta. Esta é a felicidade que não espera nada.
Tenho 31 anos, não realizei metade das coisas que eu imaginava quando tinha 16 anos. Com esta idade eu já imaginava ter saído da casa dos meus pais, ter me casado, tido 6 filhos, estar muito bem profissionalmente, ter viajado o mundo inteiro, mas, por obra do destino, ou talvez mesmo de Deus que colocou tudo isto um pouco mais pra frente, talvez com 35 anos, não realizei e nem por isso sou infeliz, pelo contrário, sou muito feliz! Aprendi que se eu ficar sempre em busca da felicidade absoluta, vou me proibir de viver as felicidades relativas e vou me tornar infeliz. Aprendi, também, que eu devo parar de sonhar minha vida...Que devo esperar um pouco menos e devo agir um pouco mais.
Por fim, transcrevo o que Mahabharata disse no livro memorial da espiritualidade indiana: “Só se é feliz quem perdeu toda a esperança, porque a esperança é a maior tortura que há, e o desespero, a maior felicidade”.

Não, não amputei minha esperança, aliás, continuo tendo, mas deixei de viver em Platão e passei a viver em Spinoza. Hoje amo e sou feliz com o que não me falta.