quarta-feira, 29 de julho de 2015

A MORTE DAS RELAÇÕES REAIS (por Ana de Oliveira)



Vendo aqueles dedos grudados no celular e que não paravam de digitar, eu disse:

- Lindo, você está se tornando antissocial. Não para de mexer no whatsapp!

Ele, sem nem olhar para o lado e se dar conta do que eu havia dito, respondeu:

- Aham.

E o silêncio se instalou. Eu fiquei lá, pensativa e com o semblante triste. Se ele soubesse que desde às 16:00 eu já comecei a ser mais feliz, pois sabia que o encontraria às 19:00, teria me dado um pouco mais de atenção...

Com a chegada da tecnologia, as relações humanas não são mais as mesmas há muito tempo. Este avanço tem modificado as relações em vários setores, dentre eles, as amizades. A criação das redes sociais veio para ajudar a “encurtar distâncias” por meio de mensagens instantâneas, em tempo real, mas ao mesmo tempo veio para aumentar a distância entre pessoas que antes eram tão próximas.

O que vejo hoje é uma geração de pessoas solitárias que deixaram de dar valor às relações reais para ficarem em relações virtuais.

Pessoas que nunca se viram, agora são “amigas” em redes sociais. No dia do aniversário se cumprimentam como se fossem “velhos amigos”, pois há de convir que é muito fácil (e prático) sair manifestando carinho e amor por intermédio da internet. Mas quando se cruzam na rua, sequer se dão ao trabalho de dar bom dia.

Se isso é estranho? Pelo menos para mim é sim! Tenho a impressão que você está em real interação com o outro, mas isso não corresponde a total realidade, pois quando você vai para a vida real, a pessoa que estava acostumada a te ler nas diversas ferramentas (Facebook, Whatsapp, Twitter, Telegram, etc.), pessoalmente pode não te escutar, não dar a devida atenção e não valorizar a pessoa que você é, sua fala, seu conteúdo.

Dia desses li que alguns psicólogos, por meio de estudos, chegaram à conclusão que o Whatsapp pode gerar o mesmo vício de uma droga. Uma droga que apresenta sintomas externos como, por exemplo, a incapacidade de relacionar-se e olhar nos olhos do outro.

Tenho que concordar, pois minha experiência narrada no começo mostra exatamente isto. Fiquei ali parada, pensando por um instante no que fazer. Eu realmente precisava conversar algumas coisas com ele e gostaria que me escutasse, que me desse um pouco de atenção. Mas eu tinha uma concorrente desleal: a tecnologia que me ofuscava e diminuía meu brilho aos olhos daquela pessoa, que tantas vezes disse que minha companhia era ótima! Tornei-me uma presença quase invisível... Quase! Não me tornei totalmente invisível porque tinham outros três amigos dele sentados a mesa, os quais conversavam sobre mulheres e “baladas” e, um, ao menos, às vezes se virava pra mim e falava algo tentando me colocar no assunto. Mas minha vergonha e minha tristeza eram tão grandes que eu só conseguia concordar com a cabeça às indagações.

Engoli o choro e me mantive firme na minha solidão acompanhada. Toda aquela conversa no Whatsapp e Telegram deveria ser mais atraente e, talvez, tinha mais a oferecer que eu. Mais cultura, mais assunto, mais sorrisos, mais carinho, mais amor, mais brilho.

Eu concordo que os aparelhos tecnológicos devem ser ferramentas de apoio, mas nunca poderão substituir um encontro com uma pessoa, uma palavra de carinho ou um abraço.

É preciso dar a cada coisa seu uso adequado. Só sei que, naquele dia, meu coração estava determinado que se fosse para falar, teria que ser com ele e mais ninguém. Tem coisas que meu coração fala só pra quem sabe escutar. O que existia dentro de mim, naquele dia, eu não abriria para qualquer um. E, contrariando toda a tecnologia, a comunicação de coração para coração é um verdadeiro mistério e, infelizmente, o outro não estava disposto a ser um bom ouvinte.

Não quero colocar a tecnologia como vilã das relações humanas, afinal, elas não têm “vida” própria, nós que damos uma vida à elas. Por não querer mais ser tratada assim que vou me “policiar”. Recuso-me a deixar de ver e sentir o ser humano na sua melhor essência; a real essência.

Quanto ao “lindo”, fui embora naquele dia com o coração partido e lágrimas nos olhos. Já em minha casa, num último pedido de atenção, mandei uma mensagem no Whatsapp pedindo um tempo para uma conversa. Sabia que através deste meio eu teria acesso a ele. Ledo engano meu: mensagem lida, não respondida e até hoje esperando a oportunidade de dividir tudo o que está aqui guardado.

Ele perdeu a chance de fazer alguém se sentir mais feliz. Em contrapartida, EU NUNCA PERDEREI ESTA CHANCE.

Nenhum comentário:

Postar um comentário